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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CIÊNCIA ANTÁRDIDA


 


Expedição russa confirma chegada à superfície de lago isolado há milhões de anos na Antártida

De acordo com o chefe da missão, tudo indica que lago não foi contaminado. Estudos com a água começam em dezembro

 Depois de 20 anos de perfuração, cientistas e engenheiros russos alcançaram a superfície do lago Vostok, localizado quase 4.000 metros abaixo do manto de gelo da Antártida. A informação foi finalmente confirmada pelo chefe da expedição, Valery Lukin, por meio de comunicado no site do Instituto Russo de Pesquisa Antártica. O lago Vostok é o maior lago subglacial — ou seja, abaixo de uma geleira — do mundo, com 250 quilômetros de extensão e 50 quilômetros de largura. O corpo de água está isolado pelo gelo há 15 milhões de anos e pode abrigar organismos vivos nunca antes estudados pela ciência. O lago também guarda segredos sobre o clima da Antártida de milhões de anos atrás.

Esclarecimento - A notícia foi divulgada um dia depois de Lukin ter afirmado à revista britânica Nature que seria "muito cedo" para confirmar a chegada da broca à superfície do lago subglacial. Por meio de nota enviada ao site do instituto russo, Lukin explicou que dados preliminares, obtidos no dia 4 de fevereiro, apontavam o contato da broca com água líquida, mas não houve confirmação visual. "Esse contato foi erroneamente noticiado por alguns veículos de comunicação como a confirmação de que tínhamos alcançado a superfície do lago", disse Lukin.

Na ocasião, a equipe percebeu que não havia mais gelo no caminho da broca. O canal foi preenchido por cerca de 40 litros de água, que se congelou enquanto os cientistas tentavam recuperá-la. "As amostras de água congelada que coletamos eram frescas", disse Lukin, indicando que o líquido teria vindo do lago. Contudo, isso não quer dizer que os especialistas tinham alcançado o gigantesco corpo de água subglacial. A perfuração continuou por mais um dia e, no dia 5 de fevereiro, a 3.769 metros de profundidade, a broca fez o primeiro contato com o lago. "Percebemos uma mudança brusca nos sensores do equipamento e um sinal de alerta foi enviado à superfície", disse o chefe da expedição.

Lago Vostok
Sem contaminação - De acordo com o comunicado, tudo indica que não houve contaminação do lago Vostok. "Como previsto em teoria há 11 anos, os resultados foram provados na prática", disse Lukin. O cientista se referiu à ideia de que, quando a broca chegasse à superfície do lago, a pressão da água faria com que o líquido inundasse o tubo de perfuração, empurrando o querosene usado para mantê-lo aberto em direção à superfície. Isso manteria o lago livre de contaminação. "Menos denso que a água, o fluido de perfuração subiu rapidamente pelo tubo", disse. "500 litros do líquido jorraram pela superfície e foram coletados por um sistema de bandejas até um barril". A declaração, contudo, não descarta a possibilidade de contaminação do lago.
Lukin finalizou o comunicado em tom de celebração: "A conquista dos pesquisadores e engenheiros russos foi um grande presente para o dia da ciência russa, celebrada pelo país no dia 8 de fevereiro", disse. Agora, a expedição retornará à Rússia. A próxima visita ao Vostok será em dezembro, durante o verão polar. Só então eles vão iniciar os estudos científicos com a água do Lago Vostok.
 LAGO VOSTOK
O Lago Vostok é o maior lago subglacial do mundo, ou seja, é um lago que se encontra sob uma geleira. Ele está localizado a quase 4 quilômetros abaixo do manto de gelo da Antártida, abaixo de uma estação russa de mesmo nome. O lago tem uma forma elíptica com 250 quilômetros de comprimento e 50 quilômetros de largura. Estima-se que o Lago Vostok tenha um volume de água doce equivalente a 5.400 quilômetros cúbicos. Isso equivale a três vezes o volume do Lago Ontário, um dos cinco grandes lagos americanos. Os cientistas acreditam que a água é mantida líquida pelo calor de uma fonte geotermal abaixo do lago e pela pressão 400 vezes superior à da superfície no nível do mar.

 

Expedição russa ameaça lago isolado há milhões de anos

Depois de perfurar mais de 4.000 metros, expedição está próxima de atingir o lago Vostok. Quais as consequências do contato com um santuário preservado por tantos milhões de anos?

 

Cerca de 4.000 metros abaixo da superfície da Antártida, o Lago Vostok permaneceu intocado por 15 milhões de anos. Por causa de fatores como pressão e temperatura, manteve-se em estado líquido todo esse tempo, abrigando formas de vida que jamais tiveram contato com o mundo exterior. Tudo isso pode acabar. Depois de várias tentativas de alcançar o lago — a primeira remonta há 20 anos — uma expedição russa está bem perto de ter êxito.
O que poderia ser uma notícia alvissareira para a ciência tem grandes chances, porém, de representar uma sentença de morte para o lago. Cientistas ouvidos pelo site de VEJA acreditam que a expedição pode contaminar um dos mais sensíveis ecossistemas do planeta de maneira irreversível. "Não há garantias de que o lago não será contaminado", afirma Jefferson Simões, cientista sênior do programa antártico-brasileiro e único brasileiro que trabalhou com amostras do poço que está sendo cavado em Vostok. 
Na opinião de Simões, essa é uma preocupação da comunidade científica há uma década. O pesquisador explica que poços de gelo profundos como o de Vostok precisam ser perfurados com querosene. "Como as perfurações são feitas apenas durante os verões da Antártida, é preciso usá-lo para manter o tubo aberto."
Isso quer dizer que o aparato que leva a broca russa até a superfície do lago está cheia do combustível. "Os russos têm dito que a pressão do lago é suficiente para fazer o querosene subir, em vez de ir para o fundo da água", diz. "O problema é que não há garantia total: o líquido pode vazar, impactar a química do lago e afetar os micro-organismos que porventura lá existam", disse. Se isso acontecer, afirma Simões, o lago pode perder grande parte do seu valor científico. "A contaminação pode desequilibrar um ambiente prístino e dificilmente saberíamos se os micro-organismos lá encontrados foram trazidos pelo homem ou existiam anteriormente."  

Caso os russos consigam chegar ao lago sem contaminá-lo, as amostras terão que receber o mesmo cuidado que se emprega às amostras vindas do espaço, explica Simões. 
Esse cuidado é justificado pelo valor das informações guardadas nas amostras do Lago Vostok. "O Vostok tem informações sobre o clima da Antártida de milhões de anos atrás, quando o lago foi coberto", diz Duarte. "Ele pode ser considerado uma das últimas fronteiras científicas", acrescenta Rosado. "Os micro-organismos encontrados lá podem servir como modelos para possíveis formas de vida extraterrestre, por causa das condições extremas do local."
Bactérias e vírus — Outra preocupação aventada, a de que o contato com o lago poderia liberar micro-organismos perigosos para o ser humano foi descartada pelos especialistas. 
De acordo com Alexandre Rosado, diretor do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da UFRJ, os micro-organismos que habitam o lago são adaptados à vida em um ambiente frio, escuro e isolado. "É pouco provável que algum deles escape e provoque doenças em um hospedeiro de sangue quente, como o homem". Rosado trabalha com diversidade de micro-organismos, inclusive na Antártida.
Rubens Duarte, um dos coordenadores do laboratório de astrobiologia da USP (Universidade de São Paulo), explica que apesar de o gelo glacial ser capaz de abrigar bactérias nocivas ao homem, as chances de contaminação são muito pequenas. "Em tese, a possibilidade sempre existe, mas ela está mais para a ficção do que para a realidade", disse Rosado. "Não sabemos se os micro-organismos do Lago Vostok poderão causar doenças nos seres humanos", afirmou Duarte.
A pesquisa científica com as amostras só deve começar no fim do ano. Em entrevista ao periódico britânico Nature, o chefe da expedição, o russo Valery Lukin, disse que ainda é cedo para afirmar que a broca atingiu a superfície do lago. "Assim que tivermos a confirmação, vamos espalhar a notícia pela comunidade internacional."

 
 

Entenda o caso

O Lago Vostok é considerado uma das últimas fronteiras da ciência na Terra

  1. • Pesquisadores russos estão muito próximos de chegar à superfície do Lago Vostok, o maior corpo de água subglacial do mundo. Os russos tentam chegar ao subterrâneo da Antártida desde o fim da década de 50. Os dados coletados podem revelar segredos sobre o clima da Antártida e do planeta há milhões de anos e alterar completamente a visão que os cientistas têm do continente.
  2. • O Lago Vostok está a quase 4 quilômetros abaixo da superfície da Antártida isolado do restante do planeta há pelo menos cinco milhões de anos. Existem cerca de 170 lagos parecidos com o Vostok debaixo do Polo Sul, mas nenhum tão grande quanto ele. Outras duas expedições, uma inglesa e a outra americana, buscam chegar à superfície de outros dois lagos: Whillans e Ellsworth.
  3. • Os cientistas acreditam que os lagos do Polo Sul podem estar interligados por uma rede de drenagem formando uma área que pode chegar a 10 milhões de quilômetros quadrados, superior à da Bacia Amazônica. 

Opinião do especialista

 John Priscu

Doutor que microbiologia pela Universidade da California, nos Estados Unidos, especialista em vida associada com o gelo da Antártida e sua relação com a astrobiologia

"A chegada ao Lago Vostok representa o auge de mais de uma década de planejamento. Se os russos tiverem sucesso, estará provado, sob o ponto de vista da engenharia, que conseguimos retirar amostras de ambientes enterrados em camadas de 4 quilômetros de gelo. Isso também significa que as portas para a ciência subglacial estarão abertas. Acredito que os dados da expedição a Vostok, junto com as informações coletadas pelas expedições americana e inglesa, transformarão a forma como vemos o continente antártico e vai expandir os limites da vida na Terra. 
Espero que os russos confirmem, sem sombra de dúvidas, de que a vida microbiana exista no lago. Este é o centro de um longo debate que só pode ser resolvido com a coleta de amostra. Os outros dois projetos pretendem retirar amostras em 2013. Estamos vivendo uma época excelente para a ciência polar".

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